27 março 2006

A importância e a necessidade do ensino superior na região Norte

Para contextualizar com os dados sócio-econômicos dispostos neste relatório, que dão um demonstrativo do quanto se faz necessária e urgente a criação de uma universidade pública na região Norte do Rio Grande do Sul, é preciso lembrar das carências microrregionais e regionais, advindas da falta de investimentos e de políticas públicas voltadas a atender uma demanda de mais de 1,5 milhões de pessoas desassistidas de ensino superior gratuito. A luta da região pela implantação de uma instituição pública é histórica. Perpassa há 25 anos, a intenção e a mobilização das comunidades num debate que sempre esbarrou na vontade política e histórica de fazê-lo.
As ações ineficazes dos governos anteriores levaram a sociedade a buscar alternativas na criação de instituições de cunho filantrópico, mantenedoras de universidades comunitárias, porém particulares e com altos valores cobrados em suas mensalidades. Hoje, pesa o fato das instituições particulares se encontrarem em situação financeira precária.
Assim, temos um esboço da localização das instituições de ensino superior pública no Estado. Se traçarmos uma linha imaginária no centro do Rio Grande do Sul, veremos que as universidades federais se encontram em municípios mais ao Sul e ao Leste do Estado: UFSM (Santa Maria), UFPel (Pelotas), Furg (Rio Grande), UFRGS (Porto Alegre) e a aparentemente pública Urcamp (Bagé).
Os jovens são atraídos para os grandes centros, abandonam suas famílias e se estabelecem em outras regiões por não terem a oportunidade de emprego garantido ou futuro profissional. Na maioria das vezes, essa “migração forçada” contribui para o esvaziamento populacional das regiões, eleva os custos financeiros das famílias na formação do estudante, ajuda à formação de novos bolsões de misérias nas cidades pólos da macrorregião Norte, desemprego, e por fim, inversão da lógica de universalizar os serviços básicos à população, neste caso, a educação superior.
Outro fator determinante é o empobrecimento da região que já foi celeiro do Estado no setor primário, sobretudo na agricultura familiar – a dicotomia entre a agricultura familiar e o agronegócio, a monocultura da soja e do trigo –, as bases da economia macrorregional. O atraso da industrialização e a mecanização do campo também são fatores de exclusão, visto a elevada migração de pessoas da área rural para a urbana.
As conseqüências dos diferentes sintomas sociológicos e históricos propuseram um novo perfil na formação de profissionais ou daqueles que conseguem a qualificação profissional de nível superior. Não obstante a carência de vagas em universidades federais e a disputa sistêmica por cursos de maior oferta, a contradição da maneira de como famílias de baixa renda poderão sustentar os estudos dessas pessoas, vão de encontro com o acesso as universidades: o estudante de baixa renda tem uma disputa desleal com os de maior poder aquisitivo, formados em escolas particulares e com recursos para custearem os ditos cursinhos pré-vestibulares.
Para suprir tais carências de toda ordem, se faz necessário a implantação de uma universidade pública na região Norte. Em audiências públicas realizadas com as comunidades regionais foram levantadas as seguintes propostas, bem como possíveis cursos superiores. Uma instituição pública que privilegie o ingresso de forma democrática, que elimine gradativamente as diferenças sociais, e centrada no compromisso de atender de maneira multicampi as necessidades microrregionais. As ações delimitadoras da nova instituição de ensino público devem permear cursos com atenção voltada para três áreas: educação, saúde e agricultura.
Na educação, conforme a LDB, é cada vez maior a redução do número de professores e da procura pela formação continuada, devido a fatores externos, como o salário, plano de carreira, carga horária e, obviamente, as condições financeiras para fazer uma especialização – a crise das universidades comunitárias levaram ao fechamento de inúmeros cursos de licenciatura na macrorregião. Recentemente, durante o 3º Fórum Gaúcho da Juventude, realizado em Cruz Alta/RS no mês de novembro, os jovens participantes dos debates temáticos também alegaram a necessidade de cursos na área da cultura: a música e a dança.
A criação de novos cursos no setor da saúde podem suprir as demandas dos hospitais regionais, hoje com dificuldades de encontrar profissionais habilitados, justamente pela busca por outros municípios que oferecem melhores garantias salariais e gratificações. Houve também o fechamento de muitos estabelecimentos de saúde na macrorregião Norte pela falta de profissionais e, principalmente, pela opção de um novo modelo na prestação de serviço centralizado em hospitais públicos, longe das cidades satélites. Os cursos que se fazem necessários terão que formar profissionais comprometidos com a medicina preventiva e alternativa – médicos, enfermeiros, nutricionistas, voltadas para uma atuação comunitária.
Propõem-se também garantir cursos relacionados à agricultura familiar. Nesta área e suas respectivas subáreas, a universidade pública deve incentivar cursos que aprimorem a produção das pequenas propriedades rurais, relacionando a diversificação de culturas. Não basta formar um agrônomo ou técnico agrícola, se esse não tiver o comprometimento de pensar o agroecológico e o manejo auto-sustentável das propriedades. Os profissionais devem ainda trabalhar na lógica da produção limpa, livre dos agrotóxicos e com ênfase na preservação ambiental.
A universidade pública deve levar em conta, que não é somente a preocupação com a formação nestas diferentes áreas que serão suficientes para eliminar as diferenças e as carências da macrorregião. Ela também terá que apostar na pesquisa e em cursos de extensão, para tornar um permanente nascedouro de novos profissionais comprometidos com o local e com o microrregional.

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